Dicas de Leituras Obrigatórias

Dicas de Leituras Obrigatórias Dicas de Leituras Obrigatórias

18 de Dezembro de 2018

Cuidar com os gêneros literários de cada leitura

Gênero Narrativo: A Máquina de Fazer Espanhóis (romance), Diário da Queda (romance), Úrsula (romance), O Continente (romance), A Hora da Estrela (novela), Papeis avulsos (contos), Morangos Mofados (contos) e Quarto do Despejo (diário).
Gênero Dramático: Hamlet (teatro) e Gota d’Água (teatro com canção).
Gênero Lírico: Poemas de Florbela Espanca (poesia) e Elis & Tom (canção).


Cuidar com a temporalidade e cronologia de cada leitura
Século XVI – XVII: Hamlet (1601 – Renascença para Barroco)
Século XIX: Úrsula (1859 - Romantismo) e Papeis Avulsos (1882 - Realismo)
Século XX/I: Poemas de Florbela Espanca (1930 – Parnaso-Simbolismo para Modernismo), O Continente (1949 – Romance de 30).
Século XX/II: Quarto do Despejo (1960), Elis & Tom (1974 – Bossa Nova), Gota d’Água (1975 – Teatro de Participação), A Hora da Estrela (1977 – Ficção contemporânea urbana) e Morangos Mofados (1982 – Contracultura).
Século XXI: Diário da Queda e Máquina de Fazer Espanhóis


Quanto aos narradores, vale destacar a posição de cada um
Primeira Pessoa: O Quarto do Despejo, Diário da Queda e A Máquina de Fazer Espanhóis.
Terceira Pessoa: Úrsula e O Continente.
Primeira e Terceira Pessoa (Contos): Papeis Avulsos e Morangos Mofados.
Problematização do Narrador/Criador: A Hora da Estrela.
Sem Narrador (Dramático): Hamlet e Gota d’Água (ação dramática criada pelas rubricas)
Sem Narrador (Lírico): Poemas de Florbela Espanca e Elis & Tom (eu-lírico ou sujeito cancional)

Cinco obras abarcam o período curto entre 1960 e 1982
Quarto do Despejo e Gota d’Água discutem explicitamente as condições dos desfavorecidos economicamente e como as classes elevadas exploram sua miséria.
Elis & Tom, embora lançado em pleno enfraquecimento da Ditadura pós-Crise do Petróleo, não toca em nenhuma questão social e aliena-se do seu contexto.
A Hora da Estrela e Morangos Mofados assemelham-se quanto à questão social secundarizada e imbuída aos dramas existenciais dos seus personagens, aliando o tipo de literatura introspectiva/intimista com as discussões metalinguísticas.
Nenhum dos livros lançados durante a Ditadura Civil Militar denuncia a arbitrariedade e a violência do Regime: em Gota d’Água, a crítica fica para a problematização do Milagre Econômico e as engrenagens capitalistas; em Morangos Mofados e a Hora da Estrela, é possível perceber uma marginalidade comportamental, na medida que os personagens não compactuam com a normatividade estabelecida pelo sistema.


É possível estabelecer relações e contrastes entre as obras
Entre Úrsula, tipicamente romântica, e Papeis Avulsos, de caráter realista, é dever do estudante perceber as diferenças na caracterização do ambiente e dos personagens, entre o idealismo romântico e as alegorias sarcásticas machadianas.
Embora em O Continente já esteja presente algumas técnicas modernas, como a fragmentação do capítulo “O Sobrado”, é nítido a diferença do seu enredo linear para com as obras pós-anos 70: em A Hora da Estrela, Morangos Mofados, Diário da Queda e Máquina de Fazer Espanhóis, a narrativa é descontínua, pulverizada, onde o tempo e o espaço não possuem uma ordem sequencial.
Os poemas de Florbela Espanca e o disco Elis & Tom são duas obras consideradas líricas e ambas se apegam intensamente à temática amorosa e dispõe de elementos da natureza.
Entre as duas obras mais contemporâneas, A Máquina de Fazer Espanhóis e Diário da Queda, é possível perceber diversas relações como o olhar interpretativo de um narrador próximo em 1 pessoa, os jogos descontínuos de narração que caracterizam os tempos contemporâneos e a problematização do passado cimentado abordando regimes autoritários (Nazismo e Salazarismo). O que se percebe nitidamente de diferente é a linguagem: enquanto A Maquina de Fazer Espanhóis explora-se a dimensão poética e lírica da linguagem, Diário da Queda temos uma brutalidade e uma secura que a reduzem ao essencial.
A discussão sobre a condição feminina é um tema presente em diversas obras selecionadas, desde Úrsula, passando pelos poemas de Florbela e também no diário de Carolina. Selecionar trechos e compará-los é um exercício interessante.
Várias obras tocam em um assunto cada vez mais contemporâneo: o jogo entre essência e aparência. Desde as injúrias de Hamlet para com a corte de Elsinore até os conselhos do pai ao filho, em “A Teoria do Medalhão”, passando ao desejo do narrador de “Os Sobreviventes” ir ao Sri Lanka, por fim, ao necessário fingimento feminino em “A Mulher II”... a discussão entre o “parecer” e o “ser” é universal e atravessa os séculos.
O preconceito é um tópico bastante atual, principalmente no que tange racismo, machismo e homofobia: o racismo pode aparece tanto na negritude, abrangendo Úrsula e Quarto do Despejo de forma mais explícita, mas sem esquecer os comentários de Luzia Silva, em O Continente, afirmando que “negro não é gente”; outra forma de compreender o racismo é o preconceito cotidiano com o judaísmo que protagoniza Diário da Queda; a homofobia é mais debatida nos contos de Morangos Mofados, principalmente “Terça-feira gorda” e “Aqueles dois”; por fim, o machismo impera indiretamente em quase todas obras na gênese patriarcal, mas especificamente nos poemas “A Mulher I” e “A Mulher II”, de Florbela Espanca, observamos as marcas de dissimulação e sofrimento feminino.


Este post foi inteiramente elaborado pelo professor Guilherme Pirillo.

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